A Nova Cara da Crise

2 de novembro de 2008

A crise econômica atual mostrou sua verdadeira cara. A expressão quase infantil, de menino pego pela professora, do presidente Bush nas televisões do mundo inteiro, passaram uma mensagem importante: “olha, eu não sei o que fazer... A coisa ta preta e precisamos fazer alguma coisa juntos...”. Não foi por acaso que, quase automaticamente, começou o quebra-quebra generalizado na Europa e a queima de divisas em quase todos os países para salvar empresas, empregos e correntistas.

Definitivamente, esta crise não seria somente norte-americana e, mais que isso, parece estar sendo uma excelente oportunidade para emparelhar novamente a economia americana com as economias européias e asiáticas, que já andavam se distanciando de forma demasiada.
Muito se tem comparado a atual crise financeira com a famosa “quebra da bolsa de Nova York”, corrida em 1929, nos Estados Unidos. Em alguns casos é até compreensível a comparação, já que os sintomas de desvalorização de commodities, falências dos grandes capitais, desemprego etc., são praticamente os mesmos. No entanto, naquela ocasião, a grande quantidade de falências e suicídios fez com que os EUA entrassem firmemente na economia, desencadeando o famoso “New Deal”, que avocou para o Estado a responsabilidade de empregar e gerar renda para a sobrevivência da família norte-americana.
A grande diferença em relação ao trato da crise atual, na verdade, é a postura dos EUA que, vacinado com a experiência de 1929, resolveu não bancar essa crise sozinho e envolveu a todos os países no salvamento da economia mundial, convidando até o Brasil para participar da solução do problema, como economia emergente.
É bom lembrar que em 1929, economias como a brasileira só foram sentir a crise uns dois ou três anos depois, com a desvalorização brutal do café, base da nossa economia, forçando o governo a adotar medidas de proteção para a produção e começar a pensar seriamente na industrialização do país.
Hoje, com a globalização, os efeitos não são mais retardados em países como o Brasil. Um bom exemplo é a queda quase que instantânea do preço do barril de petróleo caindo de 149 dólares para cerca de 60 dólares, fazendo com que o governo e a Petrobrás já não creiam ser tão viável investir fortunas na exploração do “pré-sal”.
Outro aspecto importante, é que em 1929 havia uma grande guerra terminada e outra anunciada, o que favoreceu aos nossos amigos americanos, que saíram da crise como a nova potência industrial do planeta, sobre os escombros de uma Europa destruída. Hoje, sem previsão de guerras que possam destruir a Ásia ou a Europa, os sinais lançados pelos próprios EUA apontam para mudanças mais consistentes e negociadas. Apontam a uma tendência de equilíbrio; a uma preocupação constante e compartilhada em relação ao andamento da economia e à confirmação da tendência a um mundo multipolar, onde cada vez mais os Estados devem discutir e conciliar posturas e atitudes, para o próprio bem-estar da humanidade e de cada um dos países.
Por fim, fica confirmado o velho ensinamento de que mesmo com erros de conduta e vivendo circunstâncias difíceis, sim, se pode transformar uma ameaça ou circunstância adversa em oportunidade. Um bom planejamento e uma boa condução político-estratégica podem salvar um país inteiro. Basta acompanhar com atenção, antecipar-se da melhor forma e aplicar com precisão as armas que possui, sejam elas o poder militar, a economia, a influência política ou simplesmente a cara desalentada de um presidente.

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