O homem sempre buscou a sua sobrevivência. Desde os primórdios das civilizações, os seres humanos estiveram às voltas com as ameaças à sua existência, tenha ela a natureza que tiver. A luta para não sucumbir ante essas ameaças foi a verdadeira mola impulsionadora da evolução social e política, e que segue, nos dias de hoje, sendo o fator diferencial que move as sociedades e o indivíduo isoladamente.No inicio, o homem vivia isolado, sozinho, confinado a um pequeno circulo de convivência. Sentia-se ameaçado pelo sol, pelo fogo, pelas águas, pelo frio, pelos animais e pelo próprio homem, o “lobo de Hobbes”. Diante de todas essas ameaças, o homem tinha medo. Era naturalmente bruto e violento com tudo que estava a sua volta, pois hoje estava vivo e, amanhã, já não podia ter esperanças. O seu circulo de proteção era ele mesmo, com seus medos, sua armas de mão e sua violenta resposta a todas as ameaças, amenizado apenas pela busca ancestral do seu criador, daquele que poderia explicar tudo e a própria existência em seus extremos, na alegria de uma criança ou na tristeza da morte.
Um pouco mais... E o homem passou a se organizar para se proteger. Começou a aceitar a lei do mais forte, onde o mais violento e mais corajoso de um grupo ganhava e, ao mesmo tempo, recebia a incumbência de proteger o bando contra as ameaças de outros homens, animais e forças da natureza. Assim, o homem teve mais tempo para desenvolver outras atividades mais produtivas e não violentas, como a agricultura, a confecção de utensílios, etc. Aumentava assim mais um elo de seu circulo de proteção.
Com o passar do tempo e com o aumento das sociedades, o homem passou a organizar códigos que fossem cumpridos pelos membros da sociedade. Essas leis impunham limites aos mais fortes para que se ativessem às suas tarefas de proteção e estabeleciam regras de convivência que garantissem sua sobrevivência dentro da sociedade em que vivia. Era o terceiro círculo de proteção do indivíduo, que garantia a sua existência.
Esse estágio evoluiu para um quarto círculo, com a organização dos Estados, que é uma visão mais complexa de organização social para proteção da vida do individuo e de outros benefícios agregados, como a saúde, a educação, a moradia, etc. Todas essas coisas consideradas depois da própria sobrevivência física, mas com um status de quase equivalência.
Mesmo podendo interpor outros círculos de proteção ao individuo, essa aproximação serve para se ter uma idéia da crise humana e social que se vive hoje.
O quarto círculo de proteção, o Estado, não mais assegura aqueles conceitos que o justificavam. O maior sintoma disso é a crescente descrença nas instituições, nos órgãos públicos, na polícia, etc. Em muitos países do mundo, o individuo já não conta mais com o Estado para resolver seus problemas e se vê desprotegido em muitos aspectos do que considera essencial para sua vida. Perdeu-se o quarto círculo em muitos países e, a tendência é que esse círculo se fragilize cada vez mais até a sua falência, inclusive nos estados mais ricos do mundo.
O terceiro círculo, os códigos, as leis e a ética, parece estar se corroendo aos poucos e a uma velocidade maior que a corrosão das estruturas dos estados. A revolução tecnológica está invadindo as casas e o seu lixo psicológico tem contaminado as famílias nos seus alicerces mais profundos. A falta de ética no trato das coisas públicas e o desrespeito às leis e às regras de boa convivência estão aí em todas as cidades do mundo, colocando o homem em uma situação difícil da sua existência. Esse terceiro círculo de proteção já está comprometido e, nem o homem e nem o Estado, em função da complexidade e do tamanho da sociedade atual, parecem têm condições de reverter esse quadro.
O segundo círculo de proteção, antes escondido ou diluído pelos outros dois mais abrangentes, hoje mostra seus contornos. Muitas comunidades são já reféns de autoridades não legais, como milícias urbanas, forças paramilitares, gangues, bandos criminosos, narcotraficantes etc. Todos oferecendo a segurança física ou a garantia de sobrevivência, em troca de dinheiro ou até mesmo de status junto à sociedade. Hoje o homem volta a se proteger no mais forte, no melhor armado e poderoso, enquanto o Estado, na luta pela sua sobrevivência como tal, se consome em guerras intermináveis contra esses “mais fortes”, que têm a vantagem de estarem muito mais perto de satisfazer os anseios mais primitivos de sobrevivência do homem na nossa sociedade.
Resta o homem e seu afã de sobrevivência. Resta o individuo como centro de tudo, com seus medos das coisas do céu, da força do fogo e da água, com sua primitiva brutalidade e sentindo a vida por um fio, pois tudo pode acontecer em uma esquina pouco iluminada, pode ser uma peste sem controle, uma bala perdida ou qualquer outra coisa. Na verdade, ele está sozinho e, sem enxergar os círculos de proteção que lhe serviam de muralhas, só tem a seu favor a providência divina, a aproximação de Deus. Daquele que não se vê, que transcende os limites do nosso entendimento humano e que é o único capaz de manter a nossa esperança de vida, enquanto a sociedade, em seu processo de decomposição, exala esse mal cheiro terrível que sentimos nesses dias.

1 comentários:
Muito bem observado.
As milicias do Rio de Janeiro estão aí para comprovar isso. O Estado já não é capaz de resolver os probelmas do cidadão. Que fazer... Estamos realmente sós.
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