Um Tiro no Escuro da Selva

8 de março de 2008

Todos sabem que um tiro no escuro pode causar um grande estrago e, em se tratando de movimentos estratégicos, pode ser uma temeridade...

Suponhamos, então, que Colômbia tenha disparado no escuro, ao atacar as FARC em território equatoriano. O que se teve de imediato foi a reação indignada e natural do Equador pela agressão de seu território e o enfraquecimento da guerrilha, pela perda de mais um de seus principais líderes. Tudo isso esperado ou presumível.
Entretanto, esse mesmo tiro trouxe à luz alguns fatos que andavam pela sombra, como as relações entre a guerrilha colombiana e algumas autoridades regionais e como alguns "projetos político-estratégicos", das chamadas vias não pacíficas, elaborados para o âmbito regional. Tudo isso saiu do obscurantismo para freqüentar as mesas da OEA e do chamado “Grupo do Rio”, à portas abertas.
Felizmente, tudo parece estar caminhando para soluções equilibradas e pacíficas... Mas, como vimos, um clarão, por menor que seja - e esse foi grande - favorece, ainda que de relance, a uma visão mais aguçada dos possíveis movimentos de alguns atores estratégicos que, nesse contexto de instabilidade, não podem deixar de ser considerados...
Viajemos na imaginação: e se Bolívia aproveita a oportunidade e a solidariedade para pressionar a Chile e Peru por seu desejado porto no Pacífico? E se o Perú provoca o Chile por causa do contencioso da fronteira marítima? E se Nicarágua faz o mesmo com Colômbia? E se Evo Morales ameaça fechar a torneira do gás em troca de apoio? E se o Paraguai aproveita a onda e denuncia o acordo de fornecimento de energia de Itaipu? E se Argentina cobra indenizações do Uruguay por ter autorizado a construção das "papeleras" na fronteira? E se Ugo Chaves, sem uma guerra que o distraia, ameaça reaver um pedaço da Guiana? E se os EUA reforçam sua presença na Colômbia? E se Barack Obama, admirador do “Che”, vence as eleições norte-americanas? E se as FARC, para preservar seus líderes acossados, começam a migrar para o Brasil? E se o Brasil continua agindo como se não existissem problemas na América Latina?
É, o clarão de um tiro no escuro pode servir para muitas coisas, mas serve principalmente para alertar aos que estão por perto que, em estratégia, toda luz é pouca para iluminar o caminho do futuro.

1 comentários:

Anônimo disse...

Essa é a questão Alex,
São muitas as perguntas que podem ficar no ar e que devem ser analizadas por todos e, principalmente por quem de direito.
O que vi em todo esse episódio é que a diplomacia saiu ganhando, é verdade, mas o Brasil teve uma participação muito tímida, quase nada. Enquanto todos os líderes da região estavam na República Dominicana, o nosso estava no Alemão. Talvez tenha sido melhor mesmo para o Itamaraty.